Os Mundos e a Porta

Os Mundos e a Porta

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O Panda ou o Cabo do Medo

Quando alguém vê, fala ou lê algo sobre o panda, a associação a uma ideia de ingenuidade, de candura e de "coisinha fofa" é normalmente imediata. Pode dizer-se até que se trata de uma daquelas verdades axiomáticas, indiscutíveis. Panda é puro, panda é doce, panda é fofo, se eu tivesse filhos, podia deixá-los com um panda que ficaria descansado(a). Quase como o Pai Natal, antes de deixar de o ser.

A desconstrução das verdades mais belas trazidas da infância faz parte do processo normal de crescimento intelectual e emocional. O chamado choque com a vida real. Albarran diria "o horror". O horror de saber que afinal o Pai Natal não existe, que a Branca de Neve era promíscua, que o Carlos Cruz não gosta só de botas ou que o José Sócrates não é engenheiro.

O panda não é um Pequeno Pónei. O panda é um depravado, cuja fama de desinteressado é só isso mesmo - fama. Na verdade, estamos a falar de um perigoso predador sexual, que a coberto da noite e dos recantos sombrios, ataca despudoradamente qualquer ser incauto que por ali tenha o azar de passar. Azar ou sorte. Pois há quem diga que é sorte.

Assimilar o espírito panda é também uma expressão do esforço de todos os que percorreram os tortuosos caminhos de Sichuan. Onde as verdades podem tornar-se mentiras, as certezas dúvidas e as questões respostas. Panda. Acordem para a realidade. Todos temos um panda dentro de nós, à espera de uma oportunidade.

Depois desta semana, posso afirmar: Wo shi xiong mao.

Episódios da Viagem.

Chegámos a Chengdu. Uma cidade média, com cerca de quatro milhões de habitantes, capital da província de Sichuan, no centro sul da China. O vôo tinha sido calmo, excepto a descolagem que foi um pouco acidentada. A companhia era a Air China, por isso, tudo tranquilo. Após alguns minutos de espera, lá fomos num minibus para a pousada. Ficaríamos uma noite no Holly Hostel, local simpático mas que tinha mais ar de pensão manhosa do que propriamente de pousada de juventude. Bom bom era o pequeno almoço lá servido. Tão bom que havíamos de lá voltar no último dia, só para tomar a primeira refeição do dia.

Nesse primeiro dia fomos ao Centro de Criação de Pandas Gigantes. Vimos alguns, uns mais à solta, outros menos. Certo é que esse dia seria o primeiro de muitos em que o ailuropoda melanoleuca haveria de dominar as conversas e as piadas. Mas talvez fale do panda num post específico, tal a pertinência e a importância do tema.

No dia seguinte acordámos cedo. Íamos ver o Grande Buda Sentado, uma escultura com cerca de setenta e sete metros de altura, escavada numa falésia, há umas largas centenas de anos, situada em Leshan. Foi interessante e foi também a primeira caminhada/escalada, actividades que marcariam o resto da semana. Trata-se de uma daquelas visitas que à partida não puxa muito, porque a ideia de fazer mais de cem quilómetros para ver um gordo de pedra sentado é tão apelativa como levantar às seis da manhã para ir para a bicha das Finanças para pagar o IRS. Mas a verdade é que a visão do cavalheiro em questão, que é magro, é realmente um assombro, sobretudo tendo em conta que foi feito sem recurso a telemóveis nem GPS.

Após esta visita, apanhámos o minibus para uma localidade a cerca de cento e sessenta quilómetros de Chengdu, denominada Emei. Emei não é mais que uma aldeia satélite de uma montanha com pouco mais de três mil metros de altitude, com o mesmo nome, que basicamente alberga um dos mais importantes complexos religiosos do budismo na China. Bonito foi matar saudades das caminhadas e subir uns milhares de degraus montanha acima, por entre uma floresta muito bela e densa. A certa altura arrependi-me, mas tinha uma reputação a salvaguardar e lá segui, em direcção aos meus restantes companheiros, que, prudentemente, preferiram o abichanado teleférico para realizar a dita ascensão.

Deste dia, fica o espanto de ver um autêntico mar de nuvens sob os nossos pés, um manto que toca os picos da grande montanha, por sua vez dominados por templos que mais parecem faróis de navios que ali não podem existir. Uma imagem saída de uma fábula.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Viagens neste País de Maravilhas


Viajar na China é especial.

Já viajei de avião, de comboio, de autocarro e de carrinha. Já dormi em estrados de madeira e em camas de comboio, já comi coisas que nem sabia que se comiam e em sítios onde não imaginava ser possível servirem comida, já me habituei às sanitas térreas e à correspondente estranha posição que é necessário assumir e já andei em contramão na autoestrada. Já vi montanhas nevadas e lagos de muitas cores, templos que dominam mares de nuvens do cimo de montes, já vi gente muito muito pobre que sorri mais que eu.

E de cada vez que saio, sinto que fica mais ainda por descobrir neste país-continente, onde tantas etnias, línguas e nacionalidades se cruzam numa harmonia estranha, mas eficiente. A paixão vai crescendo devagar, mas não pára de o fazer.

Tenho pena de não ter ido à Queima pela primeira vez, desde mil novecentos e noventa e sete. Claro que agora já não é como antes. Ir à Queima em jeito de reformado saudosista normalmente só serve para nos apercebermos que realmente tudo passou e que estamos a caminho da velhice. Mas a Queima é a Queima. Impossível não ir. Sorte de quem pode.

Ou azar de quem não pode estar aqui.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Viagem ao País das Maravilhas

Vamos então falar um pouco daquilo que foi uma semana de descobertas fantásticas bem no interior da China.

A viagem começou no sábado, vinte e oito de Abril. Apanhámos o avião de Pequim para Chengdu, capital da província de Sichuan, a mil e seiscentos quilómetros, também conhecida pela cozinha ultra-picante. Com base na capital, fomos conhecer um pouco da já chamada China real.
O programa foi animado. Subimos montanhas, sempre acima dos três mil, conhecemos pessoas, bem diferentes das de Pequim, dormimos em pousadas da juventude, umas boas outras enfim, mas sobrevivemos. E bem. Com o coração e a memória cheios de recordações incríveis das paisagens que vimos, dos cheiros que sentimos, dos sons que escutámos, das gentes lindas que descobrimos e de mais um episódio de reforço dos laços, já de si tão fortes, desta desterrada comunidade lusa. Tudo isto não vale a pena dizer, se não for sublinhado o contributo insubstituível que as nossas visitas deram para o sucesso do passeio.
Mas como há imagens que valem mil palavras, aqui vai então o correspondente a cerca de trezentas e trinta mil palavras... Todas da minha responsabilidade. Depois digam que eu só tenho jeito para escrever.
Procurem a pasta "Sichuan 2007". http://fotos.sapo.pt/nunomendes

terça-feira, 8 de maio de 2007

Gobi In

Voltei.

Semana fantástica. Fotos disponíveis em link a anunciar brevemente.

Espero que estejam todos bem.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Gobi Out.

Gobi vai desaparecer durante uma semana.

As montanhas que anunciam os Himalaias vão conhecer a sua antítese. Sichuan não será a mesma.

Banpo On The Road, agora também com alguns saltimbancos temporários.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Hotel Pequim.

Nas últimas semanas tem ocorrido um fenómeno que em nós tem causado um sentimento de profunda satisfação e ao mesmo tempo de doce nostalgia.

Com a estreia em Fevereiro, através do nosso colega Pedro, Contacteante da edição do ano passado e que vive em Shanghai, desaguando no momento presente, em que só nos nossos três apartamentos está alojada cerca de uma dúzia de familiares e amigos vindos expressamente de Portugal, a nossa casa pequinense tem sido um autêntico porto de abrigo.

Além daqueles, entre Fevereiro e este belo e soalheiro final de Abril, também estiveram connosco colegas de Shanghai e de Macau – todos do Programa.

A sensação que causa é a de sermos como uma casa segura, onde toda a gente quer ir, que toda a gente quer visitar, onde todos se sentem bem. É realmente reconfortante darmos o que temos para que as nossas visitas se sintam acolhidas e confortáveis, nesta autêntica república de reformados dos tempos universitários.

Os nossos familiares, os nossos amigos e os colegas vêm e vão, nós dizemos olá e dizemos adeus, fazemos companhia e rimo-nos com eles, sempre com aquela sensação de estarmos cá há muito tempo e para sempre, de os recebermos no nosso castelo e de os vermos partir, cheios de contentamento e de saudade antecipada.

Feliz foi também a descoberta de mais residentes lusos nesta cidade. Gente jovem com quem nos entendemos lindamente, com quem discutimos política e futebol, chinesices e portuguesices, sempre num ambiente entusiasmado de querer viver tudo e agora, de partilhar e de rir. De rir sinceramente, de percebermos que faz sentido estar aqui, que estamos bem e que nada de errado poderá acontecer.

Venham mais, que há sempre sofá para mais um.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

O Reencontro.


Sexta-feira, vinte e sete de Abril, noventa e quatro dias depois.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O Parto da Borboleta.


A borboleta antes de o ser era alguma coisa. Resolve um dia dizer que não quer assim e recolhe-se, para voltar mais forte e esplendorosamente bonita.


O recolhimento da dor não pode perpetuar-se. Mesmo que não se esqueça. Eu estou aqui, não estou em mais lado algum e não esquecerei. Porém sei que alguém que está comigo e com todos quer que eu e eles continuemos, mais fortes e mais bonitos. Tal como o seu coração.


Do choque brutal e da revolta incrédula, somos todos vítimas e culpados, uma vez pelo menos. Um abraço a ti, o abraço a ti, aquele que não pude dar e me consome na angústia do perdido.

Hoje é dia do sol tornar vivo a nascer e das borboletas saírem lindas a voar.

quarta-feira, 18 de abril de 2007


Hoje, tenho algo sobre o que escrever.

Mas não vou escrever, porque nem sempre as palavras, sempre tão perfeitas, conseguem cumprir o seu papel. As palavras por vezes tropeçam nelas próprias.

Restam-me o silêncio e a estupefacção.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Boletim Meteorológico.

Está a chegar a Primavera.

Chegar a Pequim em Janeiro pode ser um forte incentivo a não se gostar da cidade, tal é o frio, o smog e a falta de cor. Mas miraculosamente, desde há uma semana para cá, percebe-se que o Inverno já era. O sol brilha frequentemente, sendo até mesmo possível vê-lo pendurado num céu azul ilustrado de nuvens brancas. Já se veste apenas uma camisa e um casaco leve. Ainda no fim de semana tive uma estreia: andei na rua de manga curta! O próprio cinzento, que dominava toda a paisagem, começa a dar lugar a alguns pontos de verde e muitas árvores já floriram. Aliás, ontem e hoje estão a ser dias marcados por uma autêntica neve de esporos, que esvoaçam por todo o lado, cobrindo tudo e todos. Cheguei a recear que os meus problemas relacionados com alergias dessem de si. Mas até agora, nada, mesmo sendo uma torrente de algodõezinhos brancos, tantos que parece mesmo um verdadeiro nevão. Nem sinal das crises que me aprisionavam em casa e não me deixavam fazer absolutamente nada, às vezes nem ver e mal respirar. O sol e o calor trazem outro ânimo, fazem lembrar um outro sol e um outro calor que julgava terem ficado apenas nas minhas recordações.

Ao mesmo tempo, dizem que a época das tempestades de areia vindas de mim se aproxima a passos largos. Tempestades que cobrem a cidade de um amarelo de ouro e que, elas sim, não deixam ver nem respirar. Vou gostar de experimentar, saber como é aqui, uma boa tempestade de areia, sobretudo durante as minhas corridas diárias de bicicleta, munido que estarei de um bom par de óculos de montanha.
Depois das más disposições gobianas, vem o calor, que descrevem como tórrido e húmido. Cá estaremos também para o comprovar... ou não.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Ainda Pingyao - extra time.

Inexplicavelmente, talvez ainda emocionado com a Missa de Páscoa ou desorientado com as insolúveis más noites de sono, esqueci-me de referir aquele que foi um dos momentos altos da visita a Pingyao.

Pingyao tem uma comunidade cristã, católica ao que parecia. Limitada por um muro alto, tratava-se de uma pequena igreja rodeada de pequenas e poucas habitações, quase como um enclave. A igreja era simples e pobre. Estive talvez um minuto lá dentro, absolutamente só, junto do altar, de pé, a respirá-la e a lembrar. Foi o meu encontro, que tanto queria sem me aperceber e tão inesperado como é próprio, finalmente.

Sinto muito a falta de certas coisas. E o conforto que senti naquele momento é uma delas.

Parabéns, Joaninha!

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Ainda Pingyao – Cap. III: A Viagem para Cá.

Quando no Domingo acordámos, sabíamos que era dia de regresso. Mas “regresso” não deixa de ser de algum modo uma referência vaga ou como dizemos no Direito, um conceito indeterminado...

O Jinjinglou presta praticamente todos os serviços associados a uma excursão à cidade de Pingyao. Aliás, essa é prática comum a praticamente todos os Youth Hostels daqui. Assim, e pela módica quantia de sessenta kuays cada um, lá nos encaixámos os onze na tal carrinha que um dia gostaria de ser Hiace de nove lugares, mas que na verdade até era de seis, se virmos bem os bancos disponíveis. Fizemos cem quilómetros de Pingyao a Tai Yuan, por estradas nacionais chinesas. Indescritível. Por dia, na China, morrem cerca de duzentas pessoas nas estradas. Diz-se assim, ah isso não é nada, eles são mil e trezentos milhões. Quero lá saber das proporções e das percentagens! O que sei é que entre crateras lunares por todo o lado, ultrapassagens pela direita, andar em contramão na autoestrada, fazer uns três quilómetros por duas vezes por caminhos de cabras – para lá e para cá – só para não pagar dois euros de portagem, entrar e sair de vias rápidas por esses mesmos caminhos, inverter a marcha nessas mesmas vias pisando TRÊS traços contínuos e outras façanhas dignas de um Mr. Bean versão filme de terror, não sabemos bem como conseguimos almoçar, visitar dois locais alegadamente pitorescos e chegar ao aeroporto.

Mas chegámos. E sentar no avião foi um alívio, pois só faltava uma hora para chegar a casa e o facto de ser a desconhecida Hainan Airlines a transportar-nos pouco perturbava. Não após a épica jornada da tarde, que ficaria para sempre gravada nas nossas memórias e durante uns dias nos nossos ossos.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Ainda Pingyao – Cap. II: A Cidade.

De descrições históricas e panfletos turísticos sobre esta pequena cidade do interior da China, já está este pasquim satisfeito – ver A China Onde Vivem Os Chineses.

Assim, resta contar aquela que é a realidade que não vem nas publicidades mais ou menos enganosas.

Pingyao é uma localidade essencialmente feia. Flagelada durante anos e anos por minas e centrais de carvão, dentro e fora da cidade, na boa tradição comunista de perseguir o “progresso” a qualquer custo, o resultado é uma cidade de uma só cor – cinzento. Telhados, paredes, ruas, atmosfera, pessoas, tudo, tudo envolto ou coberto numa fina camada de pó negro, reforçada pela poeira causada pelas inúmeras obras que vão decorrendo nas vias e nos edifícios. Essa é a imagem que predomina e a memória que fica em primeiro lugar. Nunca mais me queixarei do belo e saudável smog de Pequim.

Depois há o resto. E o resto é a China que todos os que não a conhecem pensam que ela é. Dentro das muralhas da cidade, onde ficámos instalados, concretamente no acolhedor Jinjinglou Youth Hostel, característico pelos quartos das camas de três lugares (!), as ruas são estreitas e compridas, ladeadas por incontáveis lojas e lojinhas, que vendem tudo e mais alguma coisa: artesanato, comida, passeios, dormidas, almoços, jantares, roupa, acessórios e muitas outras coisas. Há vendedores de rua por toda a parte, os que fazem petiscos ao vivo e a cores e os que apenas tentam vender brochuras turísticas. As ruas são perpendiculares e todas pedonais. Por isso, há sempre a expectativa de dobrar mais aquela esquina, aliada a uma ténue sensação de labirinto. O ambiente é de boa disposição, ao ponto de até termos parado na rua para jogar um jogo típico com mais seis ou sete chineses e chinesas. Aqui é mesmo assim. Em Pequim vê-se muito jogar badmington, sobretudo à noite e no meio do passeio, por pessoas que, em Portugal, normalmente estariam em casa a queixar-se do frio ou de outra coisa qualquer ou então já a dormir.

Quando saímos das muralhas para visitar um templo taoísta a seis quilómetros dali, apercebemo-nos que na estrada, a China de Pequim não é diferente da China de Pingyao. Mas sobre isto falarei mais tarde.

Visitámos também um outro templo, da denominação tibetana do budismo, este ainda dentro de muralhas. É preciso esclarecer que “templo” não significa um edifício, mas um complexo deles, cada um dedicado a deuses diferentes e com história e contexto próprios. Assim, num cenário de introspecção e recolhimento, fomos presenteados com a companhia de alguns monges, que candidamente nos pediram para lhes ensinarmos a dizerem pussy, dick e tits, mas não sem educadamente retribuir, louvando alguns destes atributos de alguns dos banpos ali presentes, mormente os últimos. O que fica sempre bem a qualquer clérigo, sobretudo se tiver uma aparência perfeitamente inofensiva e se for baixinho, gorducho e sorridente. O absurdo e o inesperado fazem parte desta terra. Não por se interessarem pela matéria em causa, que isso é universal, mas por o demonstrarem publicamente e com a maior das naturalidades.

Mais tarde, viríamos a conhecer um local de convívio bem à moda que conhecemos: um pub, mais ou menos inspirado nos pubs britânicos. O "Sakura". De registar a amabilidade do dono do dito, aquando do lanche que lá comemos, ao convidar-nos para a festa que haveria de decorrer à noite, esquecendo-se porém de acrescentar que os convivas de tal evento seríamos apenas nós e a dúzia de estarrecidos mirones que, do lado de fora e com os narizes colados à janela nos observavam despudoradamente enquanto dançávamos (uns com os outros, pois não estava lá mais ninguém). Boa música apesar da mesa de som estourada a meio da paródia, boa bebida apesar de nem todos a terem mantido no estômago e boa noite de descanso apesar da estranha história dos quase threesomes forçados.

No dia seguinte, pouco mais fizemos para além da viagem de regresso. Tínhamos cem quilómetros de estrada pela frente até ao aeroporto mais próximo, enfiados numa carrinha de nove lugares apesar de sermos onze, e ainda dois locais ditos especiais para visitar no caminho.

Ainda Pingyao - Cap. I: A Viagem para Lá.

Apesar de alguns Gobi Fans serem especialmente iletrados e não gostarem de posts cheios dessas coisas estranhas a que alguém chamou palavras, exercendo pressões inaceitáveis para que este folhetim se torne numa Hola! chinoca, aqui estou para descrever a todos os outros a nossa viagem de há cerca de semana e meia a essa nada bela localidade de Pingyao.

Desde logo, uma nota para a Beijing West Railway Station que, não sendo a principal de Pequim, é brutalmente grande. A única coisa que me ocorreu dizer, quando fui comprar os bilhetes cinco ou seis dias antes foi “é maior que muitos aeroportos onde já estive”. Com security checks e tudo. Terminais, mangas de acesso, enfim...
Fica a foto do arco de entrada.

Viajar em comboios chineses é muito interessante, sobretudo se tivermos de dormir neles. Não fomos a tempo de comprar bilhetes soft sleeper, que são a versão mais confortável dos beliches que preenchem parte destes comboios de longo curso. A diferença para os outros, hard sleeper, onde fizemos a viagem, é que cada compartimento tem quatro camas, não seis e ainda tem porta para fechar e isolar do corredor, o que os hard sleeper não têm. Além disso, o colchãozinho dos soft é um pouco mais fofo que o dos hard.

A verdade é que, ao dar umas voltinhas pelo comboio (estilo FD, a percorrer as carruagens só para ver quem está e dizer uns olás), rapidamente nos apercebemos que hard sleeper é bem melhor, não só pelo preço mas também porque é muito mais arejado e com um aspecto mais limpo. O ambiente nestas carruagens é comunitário e muito familiar. Quem tem um beliche de baixo oferece-o para que outros possam sentar-se; o cheiro a comida aquecida domina; as pessoas acotovelam-se para passar no estreito corredor; há roncos, pés de fora das camas, traques, gente a passear de pijama e passadeiras de alcatifa muito gasta.

O tempo foi passando, por entre histórias de acampamentos e outras minhas desventuras, piadas fáceis do João, snacks rápidos da Mother Boli, cigarrinhos com o Commander Gonças e cervejinhas frescas ajuizadamente adquiridas pela Suzie Wong. Até que o cansaço nos venceu e lá fomos confrontar-nos com o teste final. As camas não eram desconfortáveis, eram muito limpas e com direito a um edredon, uma almofada e uma toalha. Recomendo a quem quiser passear por cá. A doze euros por seiscentos quilómetros, acho que vale a pena.

Doze horas depois, era dia e estávamos em Pingyao.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Páscoa em Gobi.

Domingo fui à Missa. Em Pequim existe uma pequena comunidade católica, fiel a Roma, que convive de forma desconfortável com um governo que ainda não tem relações diplomáticas com a Santa Sé e que proíbe qualquer culto cristão que não seja o da Igreja Cristã oficial do Estado Chinês.

Assim, ir à Missa tradicional torna-se uma aventura. Não que seja celebrada nas catacumbas, com receio dos legionários, nem que o símbolo maior seja um peixe, para evitar a perigosa e denunciadora cruz. Mas é no mínimo uma experiência nova, ir à Missa neste país.

O governo sabe que sábado às dezassete e domingo às dez e às onze há missa no vigésimo primeiro piso do Kerry Center. Contudo, para mostrar quem manda, qual ingénuo pai severo que obriga o rebento adolescente a estar em casa às x horas da noite só porque sim, as autoridades chinesas impõem algumas pitorescas exigências à comunidade católica, mormente aos seus líderes, que só podiam decorrer da demagogia inerente a um regime autoritário: a missa não é missa, é “festa”. Assim deve ser anunciado o encontro dominical, seja em panfletos, seja à porta da própria cerimónia. E à entrada o crente tem de apresentar o seu passaporte, para fazer prova da sua condição de estrangeiro. Pois chinês algum pode professar a Fé noutra igreja que não seja a de Mao.

Como se tratava da “Easter Party” – sim sim, tal e qual, mesmo isso, a afluência de fiéis era previsivelmente maior que o habitual. E assim foi. Salão de baile do China World Hotel, talvez umas quinhentas pessoas. Cadeiras soltas em auditório, altar coberto por uma bela toalha branca, com o Missal Romano e um círio, uma pequeníssima tapeçaria com uma representação vaga de crucifixo pendurada na parede, um pequeno Sacrário de madeira lá atrás e um ambão móvel para a leitura da Palavra.
Presidida por um sacerdote americano, o Father Thomas, um homem de sessenta anos, muito bem disposto e que induz uma dinâmica muito forte e colorida nas celebrações, a Missa foi bonita. Muito simples, com um coro bem ensaiado, mas marcada por um traço muito forte de comunhão fraternal entre os participantes. As pessoas sorriam de forma franca e aberta umas para as outras, nos momentos litúrgicos adequados e não só. Os olhares eram felizes. Porque ali, só estava quem realmente queria. Ali só se deslocou o indivíduo que está longe de casa e sente saudade do cheiro fresco das manhãs de domingo e do sol ofuscante que só há aos domingos e nos beija as faces quando caminhamos para a igreja. Sem obrigações sociais, sem conveniências circunstanciais. Na Missa de Páscoa de Pequim só estava quem sentia o chamamento que vem de dentro, um chamamento caloroso, acolhedor, luminoso, pleno e gratuito, de dádiva plena e de entrega recíproca.

Era Páscoa, com Cristo vitorioso sobre a morte e presente ali, não só vivo como Senhor da própria Vida, dentro de cada um de nós, enchendo-nos os corações de força e confiança para continuar a caminhar e para continuar a lutar, por nós e por todos os outros.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Pingyao, China - Banpo On Tour 2007.


Se carregarem nas imagens, vê-se melhor... Pros meninos da BD.



























































quinta-feira, 29 de março de 2007

A China Onde Vivem Os Chineses.

Pingyao é uma pequena localidade que fica a cerca de seiscentos quilómetros a sudoeste de Pequim.

“Do alto das muralhas, noto que a cidade é pouco mais do que um reduzido quadrado envolvido por esta vistosa barreira de pedra. Apenas cinco pequenas entradas permitem o acesso à cidade velha. Mas é no interior dessa figura geométrica que estão guardadas as principais relíquias do passado. Nada de prédios ou outros edifícios de mediana envergadura. Apenas casas térreas de um estilo bem definido, notoriamente de outra época. Algumas já restauradas, outras em via disso, bastantes ainda demasiado degradadas. E um ar de vida de bairro, com gente cozinhando apetitosa doçaria em plena rua. Comerciantes de pequenas lojas tentando atrair clientes. Barbeiros em intensa actividade. Dentes de ouro, luzindo aqui e ali. Velhos jogando cartas e jogos chineses em redor de mesas colocadas nas ruelas. E cheiros, muitos cheiros como em qualquer aldeia portuguesa. Um ocasional hello vindo de bocas juvenis, brincando. Ou gente sentada nos passeios saboreando um cigarro ocasional à porta de casa. E que casas, por vezes!”
por Filipe Morato Gomes.


Vamos lá, este fim de semana. Amanhã apanhamos o comboio às sete da tarde e aí vou eu, reviver em versão pinyin o comboio das Férias Desportivas. Onze horas de viagem, como o mui lendário Porto-Tavira. Infelizmente, só eu e o João temos a sorte de conhecer ao vivo esse ícone ferroviário. Mas contaremos aos nossos companheiros os diversos pormenores que hoje nos fazem suspirar por viagens nocturnas de comboio. Vamos em classe “hard sleeper”, pois já não havia “soft”. E voltaremos de avião, no domingo à noite. Tudo, repito, tudo, por quarenta e nove euros. E agradeço com amizade os insultos que provavelmente são proferidos aquando da leitura da frase anterior. Welcome to China. Eu gosto. E estou cá.

Depois ponho as fotos do contentamento dos Gobi BD fans.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Pequim, Vila Morena!

Gobi é livre!!

O Governo Chinês levantou a censura ao blogspot.com!

O heróico combate da Resistência Lusa contra a censura e o totalitarismo deu os seus frutos e de hoje em diante, cá estarei de novo livre para blogar e mostrar a realidade, não a material nem a dialéctica, mas a minha, a minha realidade, subjectiva, distorcida, parcial, errónea, aborrecida, divertida, a cores e a preto e branco, mas minha, caraças, livre!!!

Lição a tirar: depois destes ataques que sofri – censura chinesa aos blogs estrangeiros, indiferença geral ao caso do vigarista Sócrates, vitória de Salazar num tipo de processo de escolha que ele próprio sempre rejeitou (o voto) e ressurgimento da extrema-direita em Portugal – reaprendi e relembrei-me que há muito ainda a fazer, e permanentemente, na luta pela liberdade.

Recordei-me de mim.

O único extremismo que se pode admitir e abraçar é o combate ferrenho e sem tréguas pela liberdade das pessoas e das suas consciências e pela responsabilização daqueles que mandam! Quem virar as costas a esse combate que assuma as consequências, para si e para os outros...

segunda-feira, 26 de março de 2007

Eu, Português?

Não sei bem como possa exprimir o meu choque e o meu desgosto profundos, quando fico a saber que Portugal tem um primeiro-ministro que não é honesto, compra o curso e ninguém acha isso grave e sobretudo, quando fico a saber que Portugal tem um povo que diz que Salazar foi o maior português de sempre.
Não me interessa que o PM seja doutor ou não. Isso não conta para nada. O que conta é que ele não é honesto, porque saltou de escola em escola até que alguém lhe vendesse o curso. Mas mesmo assim, não há um jornal, uma rádio, nada, que pegue nisso a sério e que afirme sem medo que um homem sem escrúpulos não pode ser líder de um país. Estamos entregues a um vigarista e assobiamos alegremente para o lado, como se nada fosse.
Não me interessa que o concurso dos grandes portugueses fosse uma chachada de primeira água, mais uma pimbalhada estupidificante das massas que gostam é da novela e que aliviam as consciências por verem e participarem numa pseudo recapitulação (revisão?) da História de Portugal.
O PM é um vigarista. Como raio podem vocês viver tranquilamente com isso? Como? Como é possível não fazer qualquer coisa acerca disso? PM desonesto tem de cair. Tem de cair, acabou-se. Ele jurou sobre a Constituição! Não pode ter uma nódoa que seja!
Salazar foi o maior. Não me interessa que digam que isso é só um cartão amarelo à classe política actual. Não me interessa. Salazar, não. Salazar, não não não! Nunca mais! É uma vergonha! Uma vergonha!! Um desprezo grotesco por todos aqueles que lutaram com a própria vida pela liberdade, um desrespeito pelo próprio país que viveu amordaçado e amarrado durante quarenta anos, numa penumbra medieval e cuja factura de atraso económico, social e cultural ainda estamos a pagar!
E pior!: o segundo classificado só é outro que, independentemente dos sacrifícios que fez em nome da liberdade, também só os fez com o objectivo último de se tornar outro ditador talvez ainda pior que aquele que combateu!...
O que me interessa e preocupa é que o que eu sinto não é bem desgosto. É antes uma repulsa activa por tudo quanto seja da minha terra. Que é habitada por um bando de gente amorfa, inconsciente e irreponsável. E que neste momento, a única coisa que tem de bela, é a fotografia de um indescritível pôr-do-sol no meu Portinho lindo do coração, que tenho no ambiente de trabalho do meu computador, no emprego. O meu querido Porto, aquele que mora na minha memória, que me faz chorar sempre que me lembro dele; com os cheiros e as cores e as luzes e os sons e as vozes e tudo tudo tudo que só eu e quem mais puder ou quiser podemos saber...
Mas será que esse Porto existe mesmo?
Tenho muita vergonha. Eu, Português?

sábado, 24 de março de 2007

A Rambóiada do Costume.

Então, finalmente, aqui está Banpo não ao mais alto nível, mas numa noite mediana... Um exemplo de uma sexta-feira à noite @ Latino's.
Para os que sempre gostaram de ver BD sem ler os balões.




























Voltarei brevemente a este tema.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Dois Meses.

Ao fim de dois meses, cá estou. Sobrevivo e não me queixo. A vida vive-se mais quando se é forçado a dar valor a coisas que habitualmente são dadas como adquiridas. Como a liberdade de expressão.

Ao fim de dois meses, já digo: Outubro é amanhã. Sedado pelo barulho das luzes e pelas bebedeiras de azul, amanhã já é agora.

Dois meses, dois segundos. Tanta saudade, daí e já daqui, e ainda ontem aqui cheguei.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Guerra.


Irmãos blogueiros oprimidos de toda a China: UNI-VOS!!!

O ENTUPE, Exército Nacional dos Tugas de Pequim, enceta hoje a gloriosa jornada de combate heróico e libertação final de todos os blogueiros lusos e afins que vivem clandestinos nas ruas escuras e poluídas desta cidade esquecida por Deus.
Somos poucos, mas unidos na inexpugnável convicção do valor da nossa luta!

Ó Mães, rezem por nós!

Cap. Dudu out.


quarta-feira, 21 de março de 2007

Gobi Debaixo de Olho

O Governo Chinês, sem aviso prévio nem justificação e à imagem do que acontecia há apenas um ano atrás, vedou o acesso a diversos blogs, nomeadamente os que têm domínio .blogspot.

Não sei se isto vai durar muito ou pouco. O que sei é que naturalmente é limitativo para a plenitude de recursos de que o criador necessita para poder continuar a fazer crescer este pasquim, que tão simpaticamente é lido por tantas e diferentes pessoas, nos cinco continentes.

Gobi está debaixo de olho, mas não se deixará vencer.

Muitos são os caminhos para a liberdade. Começa hoje a luta.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Dia do Pai

Ontem foi Dia do Pai.

E fui eu, logo eu, que alertei os meus companheiros de jornada para esse pequeno detalhe. Logo, presumo que vá tudo bem, mesmo. Tirando este tempo peçonhento, que não ata nem desata, ninguém sabe se é nevoeiro ou se é fumo, só se sabe que não se vê nada à frente do nariz. E nem a chuva é chuva de homem, umas gotinhas de molhar tolos como eu que não largam a bike nem que chova ácido.

Amanhã, fotos e quiçá um vídeo manhoso, aqui do Capitão Dudu. Finalmente, que já estamos fartos de treta, não é?

Quando eu ganhar o Nobel conversamos.

Um Post Viril.

Só para que saibam que estou cada vez mais vivo e para não mais ser acusado de pieguices literárias, aqui fica uma prova da minha vitalidade, inquestionavelmente máscula e tipicamente portuguesa:

Grande Jesualdo, és o maior, volta que estás perdoado. Já todos percebemos qual é o teu clube do coração!... Glorioso, E Pluribus Unum!

Estou profundamente feliz. O FCP volta e meia é simpático comigo... Obrigado FCP.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Casa.

Há uns tempos atrás, fiz o Caminho Português de Santiago de Compostela, juntamente com os meus irmãos Escuteiros.

Essa caminhada teve como principal objectivo a definição e a interiorização das referências comunitárias de fundo que haveriam de orientar, no ano seguinte, a vida do Clã de Caminheiros que eu e mais dois dirigentes liderávamos na altura.

Contudo, apesar de se tratar de uma actividade de cariz essencialmente colectivo, ela não teria êxito se não fosse o aparecimento e a influência de um outro fenómeno e que normalmente surge sempre nestas ocasiões.

O encontro individual de cada um consigo mesmo, brutal, nu e cru, sem ruído de fundo que não seja a canção da montanha, ofuscando as almas de tanta verdade, num confronto primitivo com os limites íntimos, tanto físicos como emocionais, é a primeira e mais pungente arma de que nós, educadores do Escutismo, dispomos para agir pedagogicamente sobre o jovem e influenciar o seu carácter.

Caminhar cerca de vinte e cinco quilómetros por dia, ao sol e ao calor, à chuva e ao frio, de dia ou de noite, dormir num chão emprestado, comer pouco, mal e ter como único conforto a presença e a compreensão do irmão que está a meu lado, tudo isto e mais ainda, molda as mentalidades e forma os espíritos.

Finalmente estávamos às portas de Santiago. Já era fim da tarde e faltavam ainda uns quinze quilómetros. Decidimos pernoitar num albergue muito acolhedor, até porque estávamos a cumprir os tempos e só estava previsto chegar a Santiago no dia seguinte. Um dos rapazes estava mal, aflito com assaduras na parte interior das coxas e tinha mesmo de parar. Os outros pareciam bem, apesar de naturalmente cansados. Eu começava a sentir-me anestesiado, de corpo e de alma, como se o cansaço já pouco significasse para mim, como se algo me tivesse tomado e me forçasse a continuar, independentemente de conseguir ou não.

Havia beliches livres. Depois do jantar, reunimos para fazer uma curta reflexão sobre o tema do dia e avaliar o que tinha corrido bem e o que tinha corrido mal. Deitámo-nos.

A sensação que tive quando me deitei naquele colchão de espuma foi uma só: estava em casa. Tudo parou, tudo sossegou. Fechei os olhos e senti que estava em casa, de tão tranquilo e sereno que fiquei, naquela casinha perdida no meio dos montes da Galiza.

Casa é onde nos sentimos bem. Pode ser aqui e pode ser ali porque não há lei alguma que determine que cada pessoa só pode ter uma. A minha casa já foi a Galiza, por uma noite, como foi o Porto toda a minha vida. Hoje, Pequim já é a minha casa, porque estou bem, porque quando fecho os olhos já me sinto tranquilo e sereno.

No dia seguinte, no final de tudo, quando entrei na Catedral, chorei afastado dos rapazes, para que não vissem o chefe assim. Tinha-me encontrado comigo e soube que era altura de voltar à casa de sempre.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Nome de Luz

Cátia é nome de luz. Parabéns!

O Táxi de Pequim

Quando já passou mais de um mês e meio desta epopeia, começo a ter de puxar pela cabeça para tentar abstrair-me e assumir que aquilo que já é normal e corriqueiro para mim, não é para os assíduos leitores deste pasquim.

E por isso, vale a pena homenagear um dos ex libris desta cidade-estado, já aqui referido algumas vezes, mas nunca com a dignidade merecida.

O Táxi de Pequim.

Refiro-me a ele como se falasse de uma espécie animal, devido às suas características únicas, tanto no conjunto, como em cada indivíduo.

Os táxis de Pequim são sujeitos a forte fiscalização, uma vez que num passado bem recente, a prática quotidiana dos taxistas locais era um ícone para qualquer taxista do Porto ou de Lisboa, no que diz respeito a técnicas bem conhecidas de gamanço, como cobrar mais que o justo, fazer mais dez quilómetros que o necessário, etc etc.

Assim, quando se entra num táxi de Pequim, dever-se-á:

- Dizer alto e bom som, Ní Hao - para confundir o taxista, fazendo-o pensar que já somos de cá e que não nos come as papas na cabeça com duas tretas.
- Dizer alto e bom som o nome da rua, avenida ou edifício para onde se quer ir, sem recorrer a cábulas - com o mesmo objectivo.
- Verificar se o taxímetro é ligado. Se o taxista se "esquecer", deixar andar um ou dois quilómetros e depois refrescar-lhe a memória. Ele tem de ligar, senão podemos chamar a polícia.
- Abrir um pouco a janela para levar com um pouco menos do perpétuo e generalizado cheiro a alho e/ou cebola - a doutrina divide-se - que empesta cerca de noventa e nove por cento dos táxis de Pequim.
- Nunca dizer "Pu Tao Ya". O taxista dirá "ok!" e arrancará, em direcção a Oeste.
- Tirar fotos ao taxista e fazer vídeos curtos com ele, se se estiver a ir ou a vir dos copos. Isto dá cor às vidas deles, um gesto de altruísmo humano.
- Dizer "esquerda", "direita" e/ou "em frente" como se não houvesse amanhã.
- Fazer cara de mau/má e exigir recibo no fim. "Fa Piao!"
- Sorrir e agradecer. "Xié xié!"

quarta-feira, 7 de março de 2007

La Movida Em Versão Pequinois

Claro que ninguém pense que a (mo)vida num país de (cada vez menos) ditadura é aborrecida e sem animação. Sobretudo se há Portugueses por perto.

A (mo)vida é diversificada e com muitos pontos de atracção. Desde logo por decorrer, seja onde for, em contexto Banpo, o que desde logo multiplica a qualidade da coisa.

As muralhas da Banpo Village não são intransponíveis. Temos tido visitas aqui na aldeia. Sempre que alguém pede abrigo, Banpo escancara os altos portões. E então é ver as expressões de espanto e assombro, pela vida que Pequim dá a Banpo e pela outra que Banpo dá a Pequim.

Quando Banpo sai à noite, Pequim torna-se Banpo. Os romanos apercebem-se rapidamente que os gauleses saíram à rua. As suas sonoras e despreocupadas gargalhadas ecoam nas esquinas rectas da cidade escura e os indígenas agacham-se de receio à janela, espreitando curiosos a falange que passa.

Os hóspedes da Village seguem a marcha, confiantes no bom resultado da investida e na bravura dos Banpos.
Os raids têm tido como objectivo mais que um local de depravação nocturna, mas existe um em especial que começa a ficar francamente marcado pela ferocidade das hordas Banpoanas. Outra coisa não poderia acontecer a um local de nome "Latino's". Quando os exércitos de libertação entram nesse antro de suor e de cores tropicais, as paredes tremem, os cães uivam, as mães escondem os filhos. A pilhagem é completa. Beber, rir, dançar, rir, beber, cair, rir, sorrir, dançar, falar e falar. Uns com os outros, uns pelos outros, uns dos outros. Todos com todos.

Inquietos, sempre, e ainda munidos de rambóia e deboche que chegariam para três Latino's, nunca se dão por satisfeitos na sua ânsia incontrolável de diversão, gastando parte do resto das energias em mais um ou dois antros, normalmente piores, muito piores, ou piores ainda.

Mas isso não interessa. É Banpo que está na rua.

terça-feira, 6 de março de 2007

As Muitas Máscaras Do Terror.

Massagem pode ser um grande monte de massa, disforme, mal feita, daquela grossa que coze e pega toda.

Massagem pode ser uma sms em português dos Açores.

Massagem pode ser um eufemismo para prestação de serviços sexuais.

Massagem pode ser uma terapia para dores musculares e de outra ordem, através da aplicação de pressão nas zonas afectadas, normalmente com as mãos.

Massagem foi uma tareia que alguém me deu, usando uma máscara cirúrgica durante o processo. Fazendo lembrar o técnico de autópsia que, sinistro, parava por breves segundos de fazer o que estava a fazer para olhar sorridente para nós, aterrados finalistas de Direito. Não percebi a parte dos beliscões e sobretudo a necessidade de praticamente arrancar o meu sinal de pele da minha omoplata esquerda, tão bonito que ele era.

No fim, ela sorriu também.

sábado, 3 de março de 2007

Neve

Lembro-me de há muitos anos atrás a minha mãe chamar-me à varanda, aos gritos, como se algo muito importante estivesse a acontecer na rua.

E estava. Estava quase a nevar. Era estranho, era quase neve. Não sei, acho que teria talvez seis ou sete anos. Foi uma experiência que não tornei a repetir. Já estive em muitos lugares, onde neva, mas nunca voltei a ver neve.

Hoje vi neve. Muita neve. Não um nevão daqueles que se vê na televisão, de neve até ao joelho, mas neve que cai e que se vê bem que é neve e que deixa tudo branco tão depressa, que não acreditei.

Íamos no táxi, a caminho dos copos e tive de abrir a janela para ver a neve a cair. Fiquei suspenso. Nunca tinha visto neve na vida.


sexta-feira, 2 de março de 2007

Outra Estreia

E finalmente, após um mês de aventuras e rodopios, eis senão quando a realidade nua e crua choca comigo nas ruas de Pequim!
No caso concreto foi outra bicicleta, conduzida por um senhor de alguma idade que, como tantos outros, mete-se à frente de quem vem de trás da forma mais lenta e despreocupada possível.
Como se há coisa que ainda não consegui foi ganhar paciência para este jeito de andar na rua, costumo pedalar forte, digamos que a ponto de ultrapassar carros. O resultado já se vê.
O vôo foi artístico, resultado de muitos anos de mota e da aprendizagem que se vai tirando de algumas quedas, ainda poucas felizmente. De costas no chão, olhei para os lados, aguardando algum aplauso entusiasta dos transeuntes, na esperança que valorizassem a façanha e me confundissem com o herói local, o conhecido Jet Li. Mas nada. Espanto e bocas abertas. Ainda no chão e zangado, pontapeei literalmente a bicicleta, que entretanto havia feito o favor de aterrar bem em cima de mim. Olhei para a bicicleta, olhei para a minha roupa e apalpei pernas e braços. Pronto para outra.
Ainda levei do pobre diabo que me concedeu aquele momento de glória umas palmadas valentes nas costas, procurando redimir-se do triste feito enquanto me sacudia a poeira do casaco. Sacudi-o eu de cima e arranquei.
Logo pensei: "olha, mais um post."

Banpo.

A Língua Portuguesa é reconhecidamente uma das mais ricas, tanto do ponto de vista da gramática, como da própria profusão de vocábulos. Trocando por miúdos, é complicada como o caraças, tem para cima de muitas palavras e é conhecida por isso.

Aquilo que a enriquece ainda mais é a sua apetência a incorporar novas palavras, nomeadamente os denominados estrangeirismos. Hoje em dia, é sabido, somos bombardeados por novos termos sobretudo vindos da língua inglesa.

Pessoalmente não defendo a corrente que propõe a alteração desses termos estrangeiros de modo a aportuguesá-los. Penso que eles devem ser mantidos tal como o são na língua mãe, para defender tanto essa língua como a língua adoptante. A nós parecem ridículas algumas adaptações manhosas que o Brasil fez de algumas palavras inglesas, como o esporte, o checar e tantas outras mais. Dizer "email" é mais claro e simples que dizer "correio electrónico". A nossa língua não sofre qualquer prejuízo por adoptar a palavra email e todos ficam contentes.

Posto isto, venho propor a introdução na Língua Portuguesa de um estrangeirismo, desta vez, com origem no chinês, sem adaptações que desvirtuem aquilo que é um significado único e que mais palavra alguma consegue conter.

Banpo.

Banpo (que por si só já viola a regra do m antes dos p e dos b, mas eu não gosto de adaptações) foi o nome dado a uma aldeia neolítica, datada de há seis mil anos atrás e que, segundo os investigadores, é das primeiras comunidades humanas sedentárias de que há registo. A reforçar o valor histórico do achamento, vem o facto de a aldeia ter sido encontrada num excelente estado de preservação e de se encontrar numa zona do mundo, a China, que ainda hoje tem vestígios da cultura diametralmente oposta – a nómada.

Banpo é a primeira comunidade, relance original de todas as outras que se seguiram. Onde todos são diferentes, onde todos têm proveniências e histórias de vida diversas, onde uns são assim e outros são assado. Mas onde todos (con)vivem, partilhando um objectivo comum.

Mas essa banpo não expressa qualquer novidade. A novidade é uma versão específica da palavra.

Banpo é a comunidade de existência forçada onde porém os afectos são inesperadamente espontâneos e intensos. Os americanos chamar-lhe-iam one big happy family, mas é insuficiente. A TVI chamar-lhe-ia efeito Big Brother, mas tal mancha e desvaloriza o carácter bonito e simples da palavra. Porque esta traduz mais um processo dinâmico e evolutivo do que um estado. Banpo é o fenómeno do estabelecimento invulgarmente rápido e intenso de ligações afectivas entre quase desconhecidos, em situações de isolamento ou noutras que de algum modo alteram a normalidade emocional dos sujeitos. Onde as principais bases de sustentação do equilíbrio emocional, nas quais se busca a alimentação quotidiana para a alma, nas quais se busca a gargalhada mais cristalina e saída do fundo do coração, o sorriso mais tranquilo e sincero ou o ombro mais confortável onde repousar, se transferem para aqueles com quem experimentamos essas ditas situações.

Como posso tentar racionalizar o irracionalizável?

Banpo somos nós, os nove, ou dez, hã João? Enfim, estou a fazer amigos. Quem diria?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Amanhã Mostro-vos Os Meus Óculos Novos

Eu gostava dos meus óculos. Não me considero uma pessoa materialista, mas gostava deles. Todavia, como se trata de algo material, resolvi brindar o Povo Gobiano com um título à Margarida Rebelo Pinto, para variar um pouco o tom desta história.

Os meus óculos eram azuis. Os meus óculos eram bonitos.

Os meus óculos tinham uma lente que caía. A lente caía porque a armação tinha partido e como não havia fundos estruturais de coesão nem engenharia financeira possível que pudesse financiar a substituição desse equipamento social, mandei soldar a armação.

Mas a soldadura não foi bem feita e, qual soldado ferido em combate, a prova suprema do sacrifício e da dedicação daqueles óculos heróicos à causa Gobiana nunca cicatrizou devidamente.

A lente caía.

E sempre que a lente caía, eu apanhava-a. Via sempre a ferida a abrir, estava sempre lá para dar apoio ao meu velho companheiro de todas as horas. Pegava na lente, encaixava-a, afagava a armação, limpava a doente e a outra, com cuidado para não deixar cair novamente o já muito riscado pedacinho de acrílico.

Mas eu gostava deles. Como quem gosta de um cão muito velhinho, ceguito e cheio de peladas no corpo, mas que não se quer que morra, nunca.

Os meus óculos caíram. Uma última vez.
Amanhã mostro-vos os meus óculos novos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Efeméride

Trata-se de uma efeméride. Assinalar o facto é já em si um acontecimento, pois permite-me usar a palavra, que é das mais feias que foi dada a conhecer à Língua Portuguesa. E-fe-mé-ri-de.

E as efemérides comemoram-se. Seja para festejar, seja para lamentar.

Cá vai a minha comemoração de um mês no mais antigo Império do mundo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Um Mês





Faz hoje um mês que deixei Portugal.

Muralha da China?

Anteontem fomos à Muralha da China. Toda a gente sabe o que é a Muralha da China. Apesar de nem todos saberem que os seis mil e oitocentos que ela tem são quilómetros, não são metros, não é, amiguinho?...

Então e apesar de constituir suma arrogância de mais um lost in translation, dispenso-me de descrições exaustivas metidas a guia turístico sobre um monumento que é mais imponente do que qualquer fotografia ou qualquer diáriozeco internético conseguem ilustrar.

O que me interessa é contar que se trata somente de uma verdadeira metáfora sobre o permanente dilema humano do possível e do impossível.

O dilema humano colectivo, mas não só. Sobretudo, o dilema pessoal de conseguir definir objectivamente aquilo de que se é capaz ou não. A ironia é que essa definição nunca será totalmente objectiva, pois depende directamente do grau da capacidade de acreditar nos próprios sonhos e em si mesmo, o que subjectiva imediatamente a coisada toda.

Robert Baden-Powell, Fundador e Chefe Mundial dos Escuteiros e nascido faz hoje precisamente cento e cinquenta anos, era um homem à frente do seu tempo. Quando morreu, em mil novecentos e quarenta e um, deixou um ensinamento, desenhado pelo seu próprio punho, entre muitos e muitos outros:



Essa é que é a história e a mensagem da Grande Muralha da China. É um confronto com as categorias mentais que ciosamente vamos construíndo sobre nós e sobre o que nos rodeia, às pré-classificações do mundo que nos tranquilizam na cama quente do inevitável e nos dizem que ele é assim porque sim.

A Muralha é uma provocação directa e pungente às desculpas que, em jeito de mordomo corcunda de nós mesmos, vamos inventando e consolidando para justificarmos as nossas próprias preguiças, as nossas falhas, os nossos não consegui porque estava a chover ou porque estava meio adoentado ou porque tinha muitas outras coisas (inúteis) para fazer ou porque são maus para mim ou porque...

A verdade escondida de cada um, não dos restaurantes coreanos de Pequim, é aquela que está bem guardada no fundo dos nossos corações e da qual tentamos proteger-nos, por conforto e sobretudo por medo.

A incalculável capacidade de fazer coisas absolutamente extraordinárias, de estarrecer olhos e almas, coisas que nunca alguém imaginou possível mas à medida do homem, não do Homem. Que talvez seja mais fácil e menos maravilhoso erguer uma grande muralha na China do que dar ajuda, pedir perdão ou dizer amo-te.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

A Verdade Escondida

O Umbigo e o Cotão

Sem que me seja possível atestar in persona a veracidade de tais postulados, presumo que na Lusitânia distante os férteis telejornais tenham ribombado essa pitoresca curiosidade de noutro lado qualquer que não no nosso umbigo o ano se passe noutro dia que não no nosso inevitável trinta e um de dezembro.

Sim, que no nosso umbiguinho, com ou sem cotão, o ano é de passar a trinta e um.

Mas há umbigos e umbigos. Há o umbigo cristão, que tem dois mil e tal anos, o umbigo judeu que tem cinco mil e muitos, o muçulmano com mil trezentos e picos e o chino com uns quantos. Ainda há o meu, que tem vinte e oito, mas para o caso não interessa muito. O que é certo é que o meu ano novo é a nove de julho e isso não sai no telejornal mas o chinês sai. E eles nem sequer têm dia certo para passar de ano.

Por aqui é uma patetice pegada. Não percebem nada de nada nem como se vê o fogo em condições. O fogo não é como o São João. O povo não se junta em manada compacta em margens de rio algum, nariz empinado no ar e bocas semiabertas a imporem o hálito marítimo enquanto gritam ao puto para estar quieto e não chatear muito, que quero ber o fuogo carago! Nem batem as palmas de cada vez que a ponte se alumeia tuoda.

Aqui é cada um por si. Cada pessoa só pode comprar até trinta quilos de fogo para lançar, o que realmente é pouco. Acho que cada pessoa devia poder comprar quanto quisesse, isso de limitar a uns míseros trinta quilos de fogo é mesmo atitude de governo de ditadura.
Depois de rebentarem o ordenado de um mês nuns fulminantezinhos, vão para o meio da rua e continuam a rebentar. E o tuga que baixe a cabeça se não quiser apanhar com umas faúlhas valentes no manjerico. Então o resultado é este:

hoje foi terça-feira e há uma semana que esta desgraçada cidade parece que está a levar com um valente bombardeamento, de manhã à noite, porque o fogo não pára. Com o óbvio pico na noite passada de sábado para domingo, ok. Mas então funciona assim, há um manuel que se lembra que ainda tem uns morteiritos para rebentar e pronto, põe-se ali no passeio e cá vai disto. Do género, olha não tenho nada que fazer, vou ali mandar uns morteiros e venho já. Uns selvagens.

Na noite de sábado era fogo de artifício por toda a cidade, para onde quer que se olhasse no horizonte, havia fogo de artifício. E eu estava a ver de um vigésimo segundo andar, portanto, via longe. Só mesmo aqui. Cores de todos os feitios, altos, baixos, aqui e ali.

Ao menos Portugal é civilizado. O povo junta-se todo, cola-se todo, pisa-se todo, grita uns com os outros, grita com o marido, grita com a criança, grita com a mulher, com o Rio, com o Menezes, com o padre, com o vizinho e com o outro, depois o fogo vem, grita mais um bocado, espera pelos três últimos morteiros secos, que têm de ser três senão não é fogo de jeito, e depois regressa a casa, a pensar no quanto a última sardinha caiu mal, a pensar no carneiro que se vai comer ao almoço amanhã e a não pensar mais no fogo, que foi sempre bom, mas não tão bom como o daquele ano que esse sim é que foi mesmo uma categoria.

Estes indígenas passam um ano inteiro a pensar no fogo e uma semana a vivê-lo. Uns brutos.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

O Vento e o Tempo

Todas as manhãs levanto-me e pego na minha bicicleta azul de céu e levo de companhia os sons que me isolam do som cimento e cinzento e me sopram aos ouvidos Luna Luna para que não pare nunca e vôo pelas ruas da cidade cimento e cinzento caíndo-me lágrimas de vento gélido a caminho de mais um só segundo menos de aquecer as mãos no teu cabelo quente de seda e por um momento de nada torno-me senhor do mundo cimento e cinzento morrendo as minhas lágrimas gélidas na tua face quente de seda enquanto dormes serena longe comigo do outro lado do espelho e dos sons onde o céu é mesmo azul e onde há mesmo céu.


domingo, 18 de fevereiro de 2007

Mandarim em Movimento

Não sei bem o que dizer sobre isto. Eu pelo menos choro a rir de cada vez que vejo. A senhora era um personagem, mas muito simpática e empenhada.

Vejam de cima para baixo.



sábado, 17 de fevereiro de 2007

O Jet e o Lag

Há estudos que comprovam que o jetlag produz efeitos retardados em algumas pessoas, por vezes, com semanas entre a viagem e os aparecimento da referida sintomatologia. Há relatos de pessoas que passam três dias a dormir, outras passam-nos acordadas. Ainda há as que sofrem de alucinações ou até mesmo de surtos psicóticos.


Hoje não sei bem o que me deu a mim, mas alguma coisa foi de certeza.



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

J Hermano Mendes Saraiva in Verano Azul de Pekin

De salientar o tom Hermano-Attenborough. Esforcei-me, a pedido de nenhuma família mas de alguns amigos.

Metro

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Young Men's Christian Association

Apesar de estar tão longe de casa, há coisas que não mudam. E há algumas que são genuínas fatalidades. O crescimento capilar é uma delas. Dispensava bem a fatalidade de cortar o cabelo todos os meses. Porém, se não quiser tornar aos meus saudosos e rebeldes vinte anos, terei de me submeter à ditadura da tesoura.

Já estava a contar com isto.

Cortar o cabelo na China.

Digno representante da nação valente e imortal, entrei no primeiro por que passei. Há muitos cabeleireiros. Barbeiros não vi. O que me deixou com alguma nostalgia do salão do Senhor Mesquita, que já não corta cabelos, mas que deixou a herança do ofício aos seus filhos. Que até cortam o cabelo razoavelmente, entre comentários às saias que passam, actualizações permanentes sobre a vida dos vizinhos e aguerridas discussões às costas do futebol.

Entrei. O salão era grande, talvez pouco maior que a sala da nossa casinha. Tirando a coluna do meio, talvez. É a referência que me surge, pronto.

Mas toda e qualquer semelhança com o que quer que seja que eu considere ou considerasse familiar terminou por aí. Não. O ar efeminado dos cavalheiros que lá trabalham era-me familiar. E por isso ali, naquele contexto, sabendo-me rodeado de jovens alegres, senti-me tranquilo. Normalidade.

E então perguntaram aquilo que perguntam a qualquer pessoa que entra num cabeleireiro chinês: queres o top hairdresser ou o assim-assim? Aqui há sempre um cabeleireiro chefe, que normalmente dá o nome ao salão e que cobra o dobro dos outros. Ora um corte de homem é um corte simples. Se for realmente de homem. Português. Não de alegre jovem chinês. Cortar um dedo de cabelo não pode ser muito complicado. E entre pagar quatro e oito euros, disse logo forty yuans, convicto de que nada poderia correr mal.

Ofereceram-me café - que aqui vem sempre com leite se não se pedir expressamente expresso ou no milk. Please wait some moments. Ok, eu waito. Eram seis e vinte, tinha tempo.

Lavaram-me o cabelo e gostei. É sempre bom ter umas mãos carinhosas a mexer-nos no cabelo, seco ou molhado.

E então lá veio um senhor que só me fazia lembrar o motoqueiro dos Village People. Não era bem o motoqueiro, era o do bigode e dos cabedais. Um pouco barrigudito, mas nada de mais. Fiquei ainda mais descansado, nada poderia correr mal.

O jeito era de mestre. Com a mesma desenvoltura com que Glen Hughes dançava ao som de YMCA, esta encarnação do falecido artista cortava e tirava, pedindo ao rapazito que estava lá de aprendiz de alegre uma tesoura aqui, uma maquineta ali.

O resultado foi um manjerico bebé, algo que vemos por meados de Maio nos hortos, ainda a crescerem as desgraçadas plantas que servirão de traste a milhares e milhares de famílias tugas ciosas das tradições e dos santos soalheiros da broa e da sardinha.

Pouco comovido com a lusa recordação, expliquei ao jovem casapiano, único que pelos vistos lia as letras das músicas da banda ali favorita e assim aprendia o inglês da China, ó dialecto, que pretendia que dos lados do crânio as pilosidades fossem um pouco menos crescidas que no cimo do dito.

O que ele disse ao seu Ritto nunca saberei.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

De Alguma Hospitalidade Chinesa

Às vezes é preciso ter sorte. E nós tivemos sorte. Esta é a Yang, a nossa agente imobiliária. Aqui apenas um gesto de reconhecimento por alguém que, gratuitamente, nos ajudou a encontrar casa, a responder a um senhorio meio trapaceiro, a pôr internet em casa, a comprar telemóveis e respectivos cartões, a encontrar várias escolas de mandarim, a encontrar igreja onde ir à missa - mesmo que, por ignorância, evangélica e por isso inútil, a saber o melhor local para comprar bicicletas, a contratar empregada de limpeza a um euro à hora e muitas outras coisas extremamente úteis que, sem a sua ajuda, não conseguiríamos ou conseguiríamos mal.

A nossa amiga Yang.

Os Sins, os Nãos e a Inutilidade de Tudo Isso


Dizer que sim ou dizer que não é bom porque é uma ocupação mental que vai esbatendo da nossa memória o que realmente importa. Um pouco como o desempregado alcoólico diabético endividado que quando vai ao futebol deixa de ser desempregado alcoólico diabético endividado e passa a ser alguém. Por alguns minutos. Um pobre diabo mas que ali, ao pé dos outros desempregados alcoólicos diabéticos endividados ou não, é um igual aos outros.
É bom para nos fazer esquecer, durante algum tempo, que as PESSOAS querem trabalho, trabalho seguro, bem pago e que lhes permita sentirem-se úteis e com um papel na sociedade; que as PESSOAS querem saúde, com uma boa rede pública de serviços e que não dependa do recheio da carteira; que as PESSOAS querem educação, de qualidade e que lhes permita esperar fundadamente num futuro melhor; que as PESSOAS querem confiar que os outros pagam impostos na razão directa daquilo que auferem e não em razão do maior ou menor poder de fugir ao fisco; que as PESSOAS querem acreditar que se tiverem de resolver um problema em tribunal, terão uma solução justa e rápida; que as PESSOAS querem estar tranquilas em casa quando os seus filhos regressam da escola, porque a polícia tem força e poder efectivos de manter a ordem e a segurança nas ruas; que as PESSOAS querem acreditar que as suas pretensões e os seus pedidos não serão ultrapassados por aqueles que subornarem mais os agentes decisórios do Estado.

Portugal é feito destas PESSOAS. Que de vez em quando, são vítimas das tentativas de encobrimento da profunda e epidémica incompetência dos políticos, que confrontados com a sua própria inépcia, tendem a montar uns circos aqui e ali, para distrair as PESSOAS daquilo que as aflige, de modo a manterem os seus próprios privilégios durante o maior espaço de tempo. E é ver a procissão de palhaços, focas, malabaristas e trapezistas, seguidos de tantos e tantos desempregados alcoólicos diabéticos endividados, pobres diabos, que embarcam nessa loucura colectiva de inventar problemas só para esquecerem os que realmente importam. Palhaços vermelhos, malabaristas rosa, trapezistas laranja, focas azuis, todos juntos de mãos dadas, esquecendo diferenças e supostas bandeiras políticas cheias de moral e de defesa dos coitadinhos, numa completa psicose colectiva, pró menino e prá menina, algodão doce e farturas a fartar.

Porém, o que aconteceu ontem mostra que, desta vez, a procissão foi curta e que antes de deixar o adro já tinha terminado. Se não é o sol, é a chuva. As PESSOAS mostraram a todos que a legalização do aborto significa tanto para aquilo que realmente lhes importa, para aquilo que lhes tira o sono à noite, para aquilo que as preocupa durante o dia, para aquilo que as faz estar mal-dispostas, tristes e deprimidas, que, simplesmente, não foram votar. Uma lição.

Ficam os saltimbancos boquiabertos e balbuciantes, por um pequeno segundo, quando as luzes se apagam e percebem que não tinham público que lhes batesse palmas. E logo após, na mesma lógica neurótica, rebentam em gritos ganhámos e em lágrimas perdemos, como se isso importasse a quem quer que seja, disfarçando a mais crua realidade.

Uma tremenda e enorme charada. Independentemente de ter ganho o sim ou o não. Porque a vida de cada um vai continuar na mesma. O desemprego e o emprego precário; a falta de médicos no interior, a falta de hospitais devidamente equipados, as abútreas filas de espera para consultas e cirurgias e o lento mas imparável aumento do custo desses serviços; o aumento das propinas e do custo dos livros e a constante perda de qualidade dos serviços de educação; a fuga ao fisco dos poderosos e intocáveis; a justiça injusta e lenta; o medo de andar na rua; a corrupção. A vida de cada um vai continuar na mesma. Até mesmo as não-vidas das futuras PESSOAS que continuarão a ser chacinadas nos ventres maternos, seja em clínicas privadas ou em vãos de escada. Tudo na mesma.

Gostaria muito de ter podido votar contra a chacina. Mas nunca tive ilusões acerca do circo, da palhaçada e da inutilidade de tudo isto.